Vocabulário da crônica esportiva paraense #02

28/03/2009

Maior rival – pode significar “Remo” ou “Paysandu”, dependendo de quem fala. Essa expressão surgiu na boca de radialistas setorizados, que cobrem apenas o dia-a-dia de um dos clubes. Como alguns deles seguem a linha de “repórteres-torcedores”, evitam falar o nome do outro time, do mesmo jeito que os fanáticos mais chatos fazem.

 

Aplicação: “O Remo fez hoje o treino que definiu o time titular para enfrentar o maior rival” ou “O Paysandu levou a melhor no último clássico contra o maior rival”.

 

Contrário – jogador do outro time. Esta é uma palavra usada no afã de tentar diversificar o vocabulário da cobertura esportiva no rádio. Mas não seria mais fácil fazer uma construção parecida com o que se fala no cotidiano? Ou será que o jogador em questão está do avesso?

 

Aplicação: “O cabeça de área partiu para cima do contrário e fez uma falta dura”.

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Vocabulário da crônica esportiva paraense #01

24/03/2009

Canícula – originalmente, é o nome de uma estrela. Segundo este dicionário online, um dos significados da palavra é “estação calmosa, em que essa estrela e o sol estão em conjunção”. Os radialistas paraenses, no entanto, preferem utilizar outro sentido do vocábulo: calor. E como o Pará sofre com as altíssimas temperaturas de qualquer região subequatorial, é extremamente comum o uso desta palavra por radialistas que querem demonstrar que têm vocabulário.

 

Aplicação: “Remo e Paysandu entram em campo logo mais debaixo de uma forte canícula nesta tarde de domingo”.

 

Flancos – é uma expressão muito utilizada em circunstâncias militares, pois se refere ao lado de um exército. Mas no Pará, é adaptada no futebol. É usada geralmente por radialistas das antigas e por treinadores medianos que tentam emplacar na carreira com um papo meio “sábio”.

 

Aplicação: “Como os laterais da minha equipe têm características ofensivas, tenho que aproveitar para jogar pelos flancos”.

 

Entregue ao DM – as duas letrinhas formam a sigla de departamento médico e são utilizadas mesmo quando um clube não tem uma sala para o atendimento dos jogadores. Se um jogador se machuca num treino e fica fora dos gramados, ele é “entregue ao DM”, ainda que o clube não tenha um médico.

 

Aplicação: “O centroavante Rabicó torceu o tornozelo e foi entregue ao DM do clube”.


Esconde-esconde na moda

18/02/2009

Está virando rotina nos clubes paraenses. Em quase todos os treinos, ainda que não sejam às vésperas de jogos importantes, os técnicos pedem para que as câmeras de TV sejam desligadas. Às vezes, o pedido é feito com extrema educação. Em outras, é transmitido por algum garoto de recados. Há situações em que a restrição é apenas para treinos de jogadas ensaiadas. E há aquelas em que todo o treino é proibido.

 

A prática atrapalha muito os jornalistas de TV, que precisam das imagens para construir as reportagens, ainda que tenham feito boas apurações e entrevistas. E o fato de o esconde-esconde ter se tornado rotineiro faz com que os repórteres comecem a dar alfinetadas em suas matérias. Como aconteceu depois do treino de ontem do Paysandu, em que Édson Gaúcho proibiu imagens e nem deu entrevista para dar alguma satisfação.

 

Chega-se então a uma interessante discussão: limitar as imagens dos treinos é certo ou errado? O quanto uma agremiação particular (o clube é tão privado quanto uma empresa qualquer) pode se permitir escancarar tanto quanto uma instituição pública?

 

Fato 1 – a imprensa é muito mal acostumada. Até bem pouco tempo atrás, repórteres entrevistavam jogadores antes e depois dos treinos, ainda no gramado. Alguns técnicos se deixavam entrevistar durante os trabalhos, quando eram comandados pelos preparadores físicos. Aqui no Pará, as assessorias de imprensa de clubes ainda engatinham. E quando tentam instituir alguma medida para organizar o trabalho dos repórteres, são acusadas de “atrapalhar o trabalho dos colegas”.

 

Fato 2 – a imprensa pode até ser invasiva, mas isso não justifica desrespeito. Há um técnico de um clube paraense que disse a um repórter recentemente: “vocês são muito amadores”. Um dia antes, teria chamado os jornalistas de “esses fodidos da imprensa”. Não dá. Tudo o que os repórteres perguntam, o que os cinegrafistas filmam e os fotógrafos fotografam é de interesse público. Entre as pessoas que buscam informações no jornalismo diário, certamente há mais pessoas interessadas em futebol do que em meio ambiente. Preferem ler sobre Remo e Paysandu do que sobre aquecimento global ou crise econômica.

 

Em grandes clubes, como São Paulo e Palmeiras, a limitação do trabalho da imprensa esportiva já é institucionalizada. No CT do tricolor, por exemplo, apenas os cinegrafistas e fotógrafos vão para a beira do gramado durante os treinos. E com tempo cronometrado minuciosamente. Azar o deles se a notícia apareceu em um momento em que eles não acompanhavam. Isso transformou bastante o dia-a-dia das TVs que cobrem futebol. As entradas ao vivo se tornaram muito mais comuns que as matérias gravadas nos programas do meio-dia.

 

Seguir esse exemplo tem sido visto pelos clubes paraenses como um dos itens para uma suposta receita de profissionalização. E eu, particularmente, acredito que a organização do trabalho da imprensa no dia-a-dia da cobertura esportiva é um passo necessário. Desde que se atinja o sábio meio termo e que os jornalistas não sejam coibidos de fazer o seu trabalho.