A institucionalização do jeitinho

22/01/2010

Em menos de uma semana de iniciado, o campeonato paraense já teve de tudo: ameaça de suspensão, jogo adiado por causa de estádio que não está pronto, pressão nos bastidores, rodada começando antes da anterior terminar… Um verdadeiro carimbó do caboclo alucinado. Sinal de que o tal “campeonato mais forte e equilibrado dos últimos anos” já começa tão bem organizado quanto uma força-tarefa da Suat dos Trapalhões.

A última grande bagunça foi relacionada ao jogo Independente x São Raimundo, inicialmente marcado para este domingo em Tucuruí. Mas no final da manhã desta sexta-feira, dois dias antes da peleja, foi batido o martelo: a partida mudaria de local ou de data porque o estádio Navegantão não está liberado pelos órgãos de segurança responsáveis pelas vistorias. A notícia surpreendeu muita gente, já que não se falava que o Navegantão tivesse problemas. A questão é que o estádio nunca foi liberado de fato e muitos veículos de comunicação se limitaram a repetir dizer amém à diretoria do Independente, que fazia toda a pressão necessária para manter o jogo em Tucuruí enquanto obras continuavam acontecendo. Agora há pouco foi confirmado: o jogo passou para terça-feira no Baenão, em Belém.

O estádio Colosso do Tapajós, em Santarém, também tem pendências para ser liberado. Por isso a estreia do São Raimundo, que deveria ter sido no domingo passado, dia 17, foi adiada duas vezes e acabou sendo disputado somente na tarde desta sexta, dia 22, depois que a segunda rodada já havia começado. A liberação do estádio esbarra no seguinte: a prefeitura de Santarém, que administra a praça esportiva, se recusou a assinar o termo de ajuste de conduta com o Ministério Público porque perderia acesso a verbas federais. Por isso, o Pantera teve que estrear em Belém.

E parece que esses pequenos ajustes não vão acabar agora. Quase nenhum estádio foi liberado pelo Corpo de Bombeiros e pela Polícia Militar: apenas Baenão e Curuzu, em Belém, e Parque do Bacurau, em Cametá. Nem o Zinho Oliveira, onde o Águia de Marabá vai mandar seus jogos. Nem o Maximino Porpino, em Castanhal, onde o Santa Rosa pretendia jogar. Nem o Mangueirão, que era o suposto trunfo da candidatura de Belém para sediar a Copa do Mundo de 2014. Nenhum está pronto. Todos passam por “obras emergenciais” para dar aos torcedores as condições de segurança razoáveis. É a institucionalização do jeitinho. Enquanto os clubes e órgãos públicos dão um jeitinho para aprontar os estádios, a Federação Paraense de Futebol faz o mesmo com a tabela do campeonato. Agora fica a pergunta: por que as obras não foram feitas antes? Os clubes paraenses estavam se atividades profissionais há bastante tempo. O São Raimundo, o último a fazer jogos oficiais na temporada 2009, jogou até novembro. O Paysandu estava “de férias” desde agosto. O Remo, desde abril. Seja por pindaíba ou má vontade dos clubes, o fato é que o torcedor parece ainda não ser prioridade.

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O Remo estreou no Parazão com uma goleada incontestável sobre o Ananindeua: 6×0. Espantou o fantasma dos últimos dois anos, quando começou o campeonato paraense com derrota, e também deu ao torcedor remista uma estrondosa euforia. O Leão realmente teve uma atuação empolgante, com destaque para os meias Fabrício Carvalho, Gian e Vélber e para o atacante Samir. E quem pensava que o resultado só foi tão fácil por causa da fragilidade do adversário foi contrariado pela vitória do Ananindeua sobre o Águia na segunda rodada: 4×3. Mesmo assim, ainda é cedo para fazer avaliações mais definitivas sobre o Remo. Já dá pra perceber que a longa temporada de amistosos no ano passado não foi tão à toa. A base do time está entrosada e foi reforçada com boas contratações. O Leão volta a campo neste domingo, dia 24, para enfrentar fora de casa o Cametá, campeão da primeira fase e principal candidato a surpresa do interior em 2010. Vai ser o primeiro grande teste do Remo neste campeonato.

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Travinha de recesso

30/04/2009

Blogueiro tambem eh filho de Deus e, por isso, Travinha tomou a estrada e tirou uma semaninha de folga nas cercanias do feriado de primeiro de maio. Estou em Buenos Aires e, como voces podem perceber, o teclado daqui eh todo diferente. Tentarei, ao maximo, acompanhar via internet alguma coisa da reta final do Parazao  dar alguns relatos do futebol portenho. Hoje, por exemplo, tem Boca Juniors x Deportivo Tachira em La Bombonera. Saludos!


O misterioso caso de Andrey Benjó

29/03/2009

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Em 1996, o cenário do futebol paraense estava assim: o Paysandu tinha acabado de ser rebaixado para a Segundona depois de quatro anos na série A do campeonato brasileiro e já entrava na quarta temporada sem ganhar um jogo sequer contra o Remo. O Leão, tricampeão estadual, passara por um de seus maiores vexames recentes: a eliminação na Copa do Brasil com o histórico gol contra de Castor. Mas avançava no Parazão com relativa tranqüilidade, tendo inclusive emplacado uma goleada de 4×0 num Re-Pa.

Só que a aparente normalidade foi quebrada por um caso que não teve semelhante nos treze anos seguintes. No dia 12 de junho de 96, o Remo perdeu um de seus grandes candidatos a revelação da época. O atacante Andrey Benjó, de apenas 21 anos, morreu com um tiro na cabeça em circunstâncias que permaneceram inexplicadas até hoje. A tragédia foi possivelmente a última história que ultrapassou os noticiários esportivos para ganhar as páginas policiais no Pará.

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Andrey era cria das divisões de base do Leão. Aos 19 anos, durante o campeonato brasileiro da série B de 95, teve a primeira oportunidade no time profissional. Jogou duas partidas contra o Moto Clube e ajudou a livrar o Remo do rebaixamento para a série C. Acabou sofrendo do “mal de ser jogador paraense” e perdeu espaço depois da contratação de uma carrada de jogadores do Santos que se tornaram titulares naquela campanha. Só voltou ao elenco principal no início de 96, com o treinador Luizinho Lemos.

Nessa nova chance, Andrey chamou a atenção não apenas pela velocidade e pela habilidade. Era também irreverente ao ponto de ultrapassar os limites da noção. Costumava lançar desafios incomuns aos colegas como degustar insetos e quebrar cocos na cabeça. Brincadeiras à parte, estava sempre entre os relacionados para os jogos do Remo no campeonato paraense e na Copa do Brasil. O último foi no dia 9 de junho de 96. Andrey entrou no segundo tempo contra o Pinheirense e pouco ajudou na goleada de 4×0 do Leão. Apesar da atuação ruim, o garoto estava cotado para ser titular no jogo seguinte, contra o Vila Rica. Substituiria Ageu, que tinha levado o terceiro cartão amarelo. Já tinha dito ao técnico Valdemar Carabina: “professor, eu vou lhe dar uma boa dor de cabeça porque eu vou arrebentar nesse jogo de domingo”.

Só que três dias depois, a tragédia aconteceu. Andrey estava bebendo cerveja perto de casa com o volante Cléberton, vizinho no bairro da Cidade Nova e colega de Clube do Remo. Por volta das 2 da manhã, um vigilante passou por perto dizendo que tinha sido assaltado. Cléberton se prontificou a ajudá-lo: foi buscar um revólver Taurus calibre 32 e dez balas que comprara de um desconhecido no Baenão alguns dias antes. Mostrou a arma a Andrey e à namorada, mas mudou de idéia e decidiu não emprestá-la ao vigia. Andrey, então, pediu a arma dizendo que iria experimentá-la. Surpreendentemente, apontou-a contra a própria cabeça e puxou o gatilho. Uma bala estava no tambor. Foi o suficiente.

O atacante deu entrada no Hospital Belém ainda de madrugada. Às 17h20, teve a morte cerebral constatada. As funções cardiorrespiratórias de Andrey pararam definitivamente às 21h30. O desastre estava consumado.

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Enquanto Andrey era sepultado, Cléberton era apontado como responsável pela morte do amigo. Chegou a ser chamado de assassino, já que ninguém acreditava que o jogador brincalhão pudesse cometer suicídio ou uma brincadeira de mau gosto contra a própria vida. A polícia investigou o caso durante longas semanas e encontrou uma série de contradições na história contada pelo volante remista. A mão de Andrey não tinha vestígios de pólvora, o revólver de onde partiu o tiro sumiu e reapareceu, e pessoas que conheciam a vítima disseram que o atacante tinha medo de armas de fogo. Além do mais, logo após o baleamento, Cléberton teria dito uma frase que foi considerada um indício contra ele: “Eu matei meu irmão”. Quanto mais se fuçava, mais dúvidas surgiam. O caso acabou sem que se chegasse a uma conclusão precisa. E Cléberton não foi incriminado.

Apesar da tragédia e da comoção, o Remo ficou devendo uma homenagem decente para o jovem talento que morreu. No jogo contra o Vila Rica, quatro dias depois da morte, o Leão entraria em campo com dez jogadores e o décimo-primeiro entraria apenas cinco minutos depois. Repetiria-se, assim, o que o clube fez para lembrar o atacante Luizinho das Arábias, morto em 1989. Mas os jogadores remistas só entraram em campo com uma discreta fita preta na camisa. E ficou por isso mesmo: não demorou para o caso Andrey acabar esquecido pelo Remo, pelos torcedores e pela polícia. Hoje, a história representa uma dor profunda para família e nada mais que uma lembrança mórbida para os fãs de futebol.


Desafinados no futebol e no samba

27/02/2009

Por Pedrox Loureiro

 

“Não entendi o enredo deste samba, amor
Já desfilei na passarela do teu coração
Gastei a subvenção do amor que você me entregou
Passei pro segundo terceiro grupo e com razão…”

 

A letra é da canção Enredo do meu samba (D. Ivone Lara e Jorge Aragão), mas o grifo é do blog.

 

O Remo está se aperfeiçoando em rebaixamentos. Só nesta década o clube da Antônio Baena caiu duas vezes para a série C (2004 e 2007) e ano passado alcançou a façanha de não se manter na terceira divisão do futebol brasileiro, sendo agora pleiteante a uma vaga na recém-criada e já temida série D.

 

Desafinados no futebol, os remistas também foram infelizes no carnaval. Levaram o mau agouro para a avenida em 720 brincantes distribuídos em 9 alas. Aos sete anos de existência, a Sociedade Cultural do Pará Escola de Samba Embaixadores Azulinos levou para a Aldeia Cabana – passarela do samba belenense – o tema ‘A Lenda do Leão Azul – Da Grécia ao Baenão’. A organização da escola de samba queria desfazer a idéia de que o mascote é apenas um leão pintado de azul, explicando que a simbologia vai muito além.

 

Segundo o enredo, no ano 33 a.C., teria havido uma batalha sangrenta entre o Leão Azul e três górgonas (criaturas da mitologia grega com aspecto feminino que tinham o poder de petrificar aqueles que as olhassem). Na luta, o Leão conseguiu derrotar Esteno e Euríale, mas não Medusa, que o transformou em pedra de cor azulada. Nas primeiras olimpíadas, que datam de 1896 e foram realizadas justamente na Grécia, antropólogos paraenses foram até lá e trouxeram uma réplica do Leão Azul para Belém e em 1905, quando foi fundado o Clube do Remo, a estátua foi escolhida como mascote por representar glória e triunfo.

 

A agremiação carnavalesca, fundada e mantida por torcedores do Remo, exautou o maior de seus simbolos e outro rebaixamento aconteceu. Confira o resultado da apuração (do 2º grupo) do Carnaval 2009 de Belém:

 

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1º Lugar: Alegria-Alegria – 229,5 pontos

2º Lugar: Xodó da Nega – 226,5 pontos

Rebaixada: Embaixadores Azulinos – 188,5 pontos

 

Seja no Baenão, no Mangueirão ou na Aldeia Cabana, depois dessas a torcida do Remo vai precisar de reza braba para acabar com a urucubaca. Do contrário é preferível mudar o nome da escola de samba para Rebaixadores Azulinos.