Da várzea para a Gávea

18/05/2009

aleílson

Até bem pouco tempo atrás, Aleílson trabalhava numa fábrica de vassouras e rodos em Marabá. Na tarde desta segunda-feira, ele treinou pela primeira vez com a camisa do Flamengo. Deu voltas em torno do gramado da Gávea ao lado de Adriano, que disputava uma Copa do Mundo e os badalados campeonatos europeus enquanto Aleílson levava a dura rotina de operário. É o exemplo de que o futebol também produz fábulas fantásticas.

Aleílson se destacou na série C do ano passado por motivos paradoxais. Foi o artilheiro do Águia na competição, mas para cada gol marcado, perdia outros dez em cada jogo. Por isso, nunca foi unanimidade na imprensa esportiva paraense. Na Copa do Brasil deste ano, o ex-operário teve a estrela de aparecer no lugar certo na hora certa. Logo no primeiro minuto do jogo contra o Fluminense em Belém, Aleílson arrancou em direção à área tricolor e mandou um chutaço no fundo do barbante. Na frente do Parreira, sob os olhos de alguns milhões de pessoas que assistiam ao jogo pela TV Globo.

Não demorou e o nosso herói pegou um belo bonde na carreira. E, pouco tempo depois de pensar em desistir do futebol, Aleílson escancara as portas dos grandes clubes. Resta saber se ele terá espaço no time e se vai deixar de lado a fama de pé-torto.

Bonus track

Travinha publica como apêndice sobre o agora rubro-negro Aleílson um texto feito por Weliton Moreira, repórter da TV Livre de Marabá e colaborador do blog na região sudeste do Pará.

O jogador Aleilson, 23 anos, atacante destaque do Águia na Copa do Brasil, foi contratado pelo time de maior torcida no Brasil, o Flamengo. O jogador que teve uma vida dificil na sua infância, vindo de uma famiia pobre no Bairro Morada Nova em Marabá, começou a jogar em campos de várzea, onde fazia muitos gols.

Aleilson foi artilheiro do futebol amador de Marabá em várias oportundades. Ele já se destacava pela velocidade com arranques fulminantes em direção ao gol e era sempre habilidoso. Foi chamado para fazer parte do Águia depois que o time que iria disputar o Campeonato Paraense em 2006, fez um amistoso em Morada Nova e Aleilson foi o destaque, marcando um gol contra o Azulão.

Aleilson por duas vezes pensou em desistir de jogar futebol. Quando foi chamado para o Águia a primeira vez, não aceitou por que queria continuar trabalhando em uma fábrica de vassouras, onde de lá, tirava o sustento de sua familia. Ele temia perder o emprego.

A segunda tentativa de desistência se deu poucos dias atrás, quando pediu para o Presidente do Águia, Ferreirinha, conseguir um emprego para ele em uma empresa de peças de tratores de Marabá. Aleilson disse que queria parar de jogar futebol devido às criticas que vinha recebendo de torcedores, pelos muitos gols perdidos. Ele mais uma vez pensou nos filhos e queria trabalhar, mesmo em serviço pesado carregando ferros.

O técnico João Galvão foi decisivo para que o atleta não desistisse de sua carreira. Dias depois, o telefone tocou e um grupo de empresários levou Aleilson para o Rio de Janeiro, acompanhado do Presidente do Águia, Ferreirinha e do Técnico, João Galvão, onde juntos ficaram impressionados com a surpresa: O interesse no jogador era do Clube de Regatas Flamengo, onde Aleilsom, mesmo pensando em desistir de jogar futebol, jamais imaginaria que pudesse chegar um dia…


Tostão em Belém no caminho do tri

19/02/2009

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O Pará nunca foi um estado frutífero de jogadores para a seleção brasileira. Os atletas paraenses que vestiram a amarelinha foram exceções que confirmam a regra. Suíço, Quarentinha, Charles Guerreiro, Giovanni, Sócrates (que só nasceu aqui e foi embora muito cedo)**… contam-se nos dedos. No entanto, a capital do estado fez parte da trajetória de um craque do escrete canarinho rumo ao tricampeonato mundial em 70. Apesar de ser uma participação quase irrelevante, é um causo curiosíssimo que hoje completa 39 anos.

No dia 20 de fevereiro de 1970, Belém foi a primeira parada em solo brasileiro no regresso de Tostão dos Estados Unidos. Ele havia feito uma série de exames médicos em Houston, nos Estados Unidos. Alguns meses antes, num jogo entre Cruzeiro e Corinthians no Pacaembu, o atacante cruzeirense tomou uma bolada no olho esquerdo depois de um chute do zagueiro corintiano Ditão. Tostão sangrou em campo. Tinha sofrido um descolamento de retina. O problema deixou a torcida brasileira tensa às vésperas da Copa do Mundo no México.

 

Na rota entre Houston e o Rio de Janeiro, onde se apresentaria à seleção, Tostão fez uma escala em Caracas e outra em Belém, onde passou exatos 55 minutos antes de embarcar rumo ao Galeão. O Boeing da Varig que o trazia da capital venezuelana pousou no aeroporto de Val de Cães às 2h45 da madrugada. A presença do craque não era uma surpresa, já que muitos jornalistas (inclusive do Ceará) foram cobrir a rápida passagem do artilheiro do Brasil nas eliminatórias da Copa. Segundo os relatos do jornal “A Província do Pará”, Tostão tratou o assédio com naturalidade e sem vaidade. Atendeu à imprensa e se deixou fotografar pelos fãs com muita simpatia.

 

Tostão fez questão de deixar bem claro que não havia motivo para apreensão sobre a possibilidade de ele ficar fora da Copa. Na bagagem, ele trazia os exames que comprovavam: a recuperação da lesão no olho era rápida. Por isso, o craque se disse surpreso com os boatos de que ficaria fora do Mundial. Ele prometia dedicação para recuperar as condições físicas, já que havia engordado seis quilos no tempo em que ficou sem jogar. “Regresso ao Brasil convicto de que estou totalmente recuperado da vista. Jamais me apresentaria à comissão técnica sem condições de integrar a seleção brasileira. Se agisse assim, estaria agindo contra mim mesmo”, disse. Depois de receber um exemplar do “Jornal dos Sports” de um repórter, Tostão embarcou às 3h45 e seguiu viagem rumo ao Rio de Janeiro. A rápida presença do craque em Belém ganhou páginas inteiras nos jornais locais.

 

Pouco tempo depois, houve uma mudança significativa na seleção: o técnico João Saldanha (que preferia Tostão a Pelé, a quem chamava de míope) foi demitido. A recuperação de Tostão convenceu o novo treinador, Zagallo. E o craque do Cruzeiro foi para o México, onde acabou sendo um dos grandes destaques do escrete tricampeão do mundo.

 

O problema na visão levou Tostão a encerrar a carreira precocemente, aos 26 anos, em 1973. Depois de abandonar o futebol, o craque se formou em medicina e sumiu dos holofotes. Só “reapareceu” nos anos 90, quando se tornou colunista de jornais e comentarista de emissoras de rádio e TV. Nesse meio tempo, o Pará não mandou para a seleção um grande craque como Tostão. A não ser em Boeings da Varig depois de uma rápida passagem pela capital. 

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** informação adicionada após o comentário do Hélio aí embaixo.