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18/06/2009

Se Nelson Rodrigues tivesse nascido na segunda metade do século 20, não pensaria apenas no povo brasileiro para criar a expressão “complexo de vira-latas”. Poderia usar como inspirações os clubes paraenses e seus retrospectos vexatórios em jogos fora de casa. Quando um deles pisa no aeroporto de Val de Cães, parece que o embarque é rumo ao inferno. Os jogadores já se sentem derrotados, fala-se que o empate é considerado uma vitória e que a vitória é um resultado improvável. E não   importa se o time está nas cabeças ou brigando pra escapar da degola. Sempre vai tomar toco fora de casa. A história recente aponta apenas duas exceções: o Paysandu na Libertadores de 2003 (que venceu três dos quatro jogos que disputou fora do Brasil) e o Águia de Marabá nas duas últimas temporadas na série C.

 

O time do sudeste do estado não chega a ser um fenômeno como o Papão na competição sul-americana, mas tem um desempenho inegavelmente respeitável. Na terceirona deste ano, foram duas vitórias em dois jogos fora do Pará. A última no domingo passado: 2×0 sobre o Luverdense no interior de Mato Grosso. Os resultados engordam um palmarés que chega a causar inveja à dupla Re-Pa.

 

Somados os números da série C de 2008 e 2009, o Águia fez 18 jogos fora de casa. Venceu 7, empatou 2 e perdeu 9. Dos 54 pontos que disputou, conquistou 23. Apesar de ter perdido mais que vencido, o Azulão cravou um aproveitamento de pontos razoável: 42,59%. Com esse percentual, o time marabaense seria o sétimo colocado na série A do brasileirão.

 

O mais curioso é que mesmo os clubes paraenses que se deram bem em competições nacionais não tiveram um aproveitamento tão bom. O Paysandu, quando foi campeão brasileiro da série B em 2001, teve um desempenho pífio longe de Belém: não venceu nenhum dos 16 jogos que disputou. Empatou 12 e perdeu 4. Dos 48 pontos disputados, conquistou apenas 12, o equivalente a apenas 25%.

 

O técnico João Galvão diz que o segredo para este relativo sucesso do Águia é o fato de o time jogar sempre de forma ofensiva. E este ano, o Azulão conseguiu uma formação ofensiva melhor que a do ano passado. Felipe, machucado, e Aleílson, que foi para o Flamengo, deram lugar a Marcelo Maciel e Bruno Rangel. Os dois têm demonstrado um entrosamento perfeito e construído uma inabalável relação garçom-matador. Bruno é artilheiro da série C com 5 gols. Quatro deles tiveram assistência de Marcelo. Com uma dupla de ataque afinada, um time sem medo de jogar fora de casa e um campeonato com regulamento enxuto, o Águia pinta de fato como um candidato ao acesso à série B.


Não deu

01/06/2009

belem 2014

Um dos bordões do Kiko, personagem do Chaves, pode se tornar uma das explicações mais absurdamente coerentes para explicar a ausência de Belém da lista de 12 cidades que vão sediar jogos da Copa do Mundo de 2014. Afinal de contas, segundo o comitê que organizou a candidatura da capital paraense, tínhamos todas as condições: um estádio semi-pronto, um aeroporto (supostamente) adequado e bons planos de obras de infra-estrutura. Isso tudo além de um povo apaixonado por futebol, que faria com que os investimentos na reforma do Mangueirão não fossem à toa. O que faltou afinal?

Faltou articulação política local. Apesar do discurso de união entre governo e prefeitura, o estado e o município nunca trabalharam afinados. O sinal mais claro disso foi no dia do anúncio das cidades-sede, em que foram montados dois pontos de concentração de torcedores. Um pelo governo estadual na Praça da República e outro pela secretaria municipal de esporte na avenida Doca de Souza Franco. Resultado: festas esvaziadas, principalmente a da Doca.

Faltou explicar melhor o projeto da cidade. O único número que realmente ficou claro foi o valor da reforma do Mangueirão: pouco mais de 90 bilhões de dólares. No mais, o comitê organizador da candidatura de Belém se mostrou confuso numa salada de cifras. Num dia, o orçamento das obras de infra-estrutura estava na casa dos milhões. No outro, já tinha se tornado bilionário. Chegou-se a dizer que o custo total da repaginação da capital paraense superaria os 21 bilhões de reais, valor que supera o orçamento das Olimpíadas de Londres e, segundo um colega de trabalho, seria suficiente para construir postes de ouro e ruas de ladrilho espanhol em Belém.

Faltou a boa malandragem. Confiar na amizade com o presidente Lula já não tinha sido o suficiente para a governadora Ana Júlia Carepa se eleger em 2006. Que dirá para fazer de Belém uma das sedes da Copa. Era preciso um lobby permanente junto à Fifa, o “queixo” do governador amazonense Eduardo Braga (que falou em nome de todos os governadores brasileiros quando o Brasil foi anunciado como país-sede da Copa), a ajuda de pessoas que já vivenciaram uma Copa do Mundo… Belém fez nada mais que um arroz-com-feijão, quando deveria ter elaborado um belo banquete.

Agora só resta choramingar algumas migalhas, como a presença de alguma seleção numa pré-temporada ou concentração, em um amistoso preparatório. Ou ainda algum evento paralelo organizado pela própria Fifa, possibilidade admitida pelo presidente da entidade, Sepp Blater. Esta é não apenas uma derrota política, como também um nocaute no já combalido futebol paraense.

PS: Belém poderia brigar para sediar a Fifi Wild Cup, a Copa dos Excluídos.