O justo pleito de Santarém

31/03/2009

Você tem certeza de que há algo de estranho no futebol local quando uma entidade como a Federação Paraense atropela os interesses do Remo ou do Paysandu. É o que está prestes a acontecer, caso o São Raimundo se classifique para as semifinais do segundo turno em primeiro ou segundo lugar. O Remo fala em ir até as últimas conseqüências para não jogar em Santarém se cruzar com o Pantera na semifinal. Só que o diretor técnico da FPF, Paulo Romano, já disse que não há nada que impeça um jogo da fase decisiva no interior do estado.

 

No fundo, no fundo, a polêmica é motivada pelo bom desempenho que o São Raimundo tem nos jogos em casa: venceu quatro das seis partidas que disputou no Barbalhão. Além disso, o alvinegro é um pequeno fenômeno de público. Tem uma média de quase 9 mil pagantes por jogo, número muito melhor que o dos grandes da capital. Ou seja, é uma situação de risco para um clube que tem tido uma campanha irregular, como é o caso do Remo.

 

Só que a explicação dada pela diretoria azulina diz respeito à ata da reunião do conselho técnico da FPF, realizada em setembro do ano passado. No documento, estão registrados alguns esboços de regras para os campeonatos de 2009 e 2010. Entre elas, uma linha que diz que “os jogos das fases semifinais e finais dos turnos devem ser realizados, em princípio, no Estádio Olímpico do Pará”. É na entrelinha aberta pelo termo “em princípio” que a cartolagem remista aposta.

 

Por outro lado, a Federação contesta este argumento e diz que vale o que está no regulamento da competição, que não tem nenhum artigo determinando o Mangueirão como o local obrigatório para os jogos decisivos. Tanto que, na tabela oficial, os locais das semifinais e das finais estão em branco.

 

O São Raimundo apenas aguarda a poeira baixar, precisando de uma simples vitória em casa sobre o lanterna Ananindeua para ter direito ao mando de jogo na semifinal. A diretoria do clube informou que já identificou e entregou à polícia duas pessoas que teriam atirado objetos em direção ao gramado no jogo do último sábado contra o Paysandu, o que já isentaria o clube de uma possível punição por mau comportamento da torcida.  Agora é só esperar para ver até onde vai esse apoio da Federação e se essa briga do Remo para não jogar no interior vai ser realmente necessária.

Anúncios

O misterioso caso de Andrey Benjó

29/03/2009

img_0723

Em 1996, o cenário do futebol paraense estava assim: o Paysandu tinha acabado de ser rebaixado para a Segundona depois de quatro anos na série A do campeonato brasileiro e já entrava na quarta temporada sem ganhar um jogo sequer contra o Remo. O Leão, tricampeão estadual, passara por um de seus maiores vexames recentes: a eliminação na Copa do Brasil com o histórico gol contra de Castor. Mas avançava no Parazão com relativa tranqüilidade, tendo inclusive emplacado uma goleada de 4×0 num Re-Pa.

Só que a aparente normalidade foi quebrada por um caso que não teve semelhante nos treze anos seguintes. No dia 12 de junho de 96, o Remo perdeu um de seus grandes candidatos a revelação da época. O atacante Andrey Benjó, de apenas 21 anos, morreu com um tiro na cabeça em circunstâncias que permaneceram inexplicadas até hoje. A tragédia foi possivelmente a última história que ultrapassou os noticiários esportivos para ganhar as páginas policiais no Pará.

img_0725

Andrey era cria das divisões de base do Leão. Aos 19 anos, durante o campeonato brasileiro da série B de 95, teve a primeira oportunidade no time profissional. Jogou duas partidas contra o Moto Clube e ajudou a livrar o Remo do rebaixamento para a série C. Acabou sofrendo do “mal de ser jogador paraense” e perdeu espaço depois da contratação de uma carrada de jogadores do Santos que se tornaram titulares naquela campanha. Só voltou ao elenco principal no início de 96, com o treinador Luizinho Lemos.

Nessa nova chance, Andrey chamou a atenção não apenas pela velocidade e pela habilidade. Era também irreverente ao ponto de ultrapassar os limites da noção. Costumava lançar desafios incomuns aos colegas como degustar insetos e quebrar cocos na cabeça. Brincadeiras à parte, estava sempre entre os relacionados para os jogos do Remo no campeonato paraense e na Copa do Brasil. O último foi no dia 9 de junho de 96. Andrey entrou no segundo tempo contra o Pinheirense e pouco ajudou na goleada de 4×0 do Leão. Apesar da atuação ruim, o garoto estava cotado para ser titular no jogo seguinte, contra o Vila Rica. Substituiria Ageu, que tinha levado o terceiro cartão amarelo. Já tinha dito ao técnico Valdemar Carabina: “professor, eu vou lhe dar uma boa dor de cabeça porque eu vou arrebentar nesse jogo de domingo”.

Só que três dias depois, a tragédia aconteceu. Andrey estava bebendo cerveja perto de casa com o volante Cléberton, vizinho no bairro da Cidade Nova e colega de Clube do Remo. Por volta das 2 da manhã, um vigilante passou por perto dizendo que tinha sido assaltado. Cléberton se prontificou a ajudá-lo: foi buscar um revólver Taurus calibre 32 e dez balas que comprara de um desconhecido no Baenão alguns dias antes. Mostrou a arma a Andrey e à namorada, mas mudou de idéia e decidiu não emprestá-la ao vigia. Andrey, então, pediu a arma dizendo que iria experimentá-la. Surpreendentemente, apontou-a contra a própria cabeça e puxou o gatilho. Uma bala estava no tambor. Foi o suficiente.

O atacante deu entrada no Hospital Belém ainda de madrugada. Às 17h20, teve a morte cerebral constatada. As funções cardiorrespiratórias de Andrey pararam definitivamente às 21h30. O desastre estava consumado.

img_0738

Enquanto Andrey era sepultado, Cléberton era apontado como responsável pela morte do amigo. Chegou a ser chamado de assassino, já que ninguém acreditava que o jogador brincalhão pudesse cometer suicídio ou uma brincadeira de mau gosto contra a própria vida. A polícia investigou o caso durante longas semanas e encontrou uma série de contradições na história contada pelo volante remista. A mão de Andrey não tinha vestígios de pólvora, o revólver de onde partiu o tiro sumiu e reapareceu, e pessoas que conheciam a vítima disseram que o atacante tinha medo de armas de fogo. Além do mais, logo após o baleamento, Cléberton teria dito uma frase que foi considerada um indício contra ele: “Eu matei meu irmão”. Quanto mais se fuçava, mais dúvidas surgiam. O caso acabou sem que se chegasse a uma conclusão precisa. E Cléberton não foi incriminado.

Apesar da tragédia e da comoção, o Remo ficou devendo uma homenagem decente para o jovem talento que morreu. No jogo contra o Vila Rica, quatro dias depois da morte, o Leão entraria em campo com dez jogadores e o décimo-primeiro entraria apenas cinco minutos depois. Repetiria-se, assim, o que o clube fez para lembrar o atacante Luizinho das Arábias, morto em 1989. Mas os jogadores remistas só entraram em campo com uma discreta fita preta na camisa. E ficou por isso mesmo: não demorou para o caso Andrey acabar esquecido pelo Remo, pelos torcedores e pela polícia. Hoje, a história representa uma dor profunda para família e nada mais que uma lembrança mórbida para os fãs de futebol.


Vocabulário da crônica esportiva paraense #02

28/03/2009

Maior rival – pode significar “Remo” ou “Paysandu”, dependendo de quem fala. Essa expressão surgiu na boca de radialistas setorizados, que cobrem apenas o dia-a-dia de um dos clubes. Como alguns deles seguem a linha de “repórteres-torcedores”, evitam falar o nome do outro time, do mesmo jeito que os fanáticos mais chatos fazem.

 

Aplicação: “O Remo fez hoje o treino que definiu o time titular para enfrentar o maior rival” ou “O Paysandu levou a melhor no último clássico contra o maior rival”.

 

Contrário – jogador do outro time. Esta é uma palavra usada no afã de tentar diversificar o vocabulário da cobertura esportiva no rádio. Mas não seria mais fácil fazer uma construção parecida com o que se fala no cotidiano? Ou será que o jogador em questão está do avesso?

 

Aplicação: “O cabeça de área partiu para cima do contrário e fez uma falta dura”.


Remo em apuros

28/03/2009

Poderia se culpar a falta de um técnico motivador e menos pragmático. Só que Artur Oliveira está no comando há três rodadas. Os salários atrasados também funcionariam como um escapismo fácil na boca de quem quer justificar. No entanto, este é um problema que a diretoria tem se esforçado para não cometer. Então qual seria a razão para explicar o iminente fracasso do Remo no campeonato paraense e na busca por uma vaga na série D do campeonato brasileiro?

 

Sejamos honestos: o São Raimundo é o favorito nesta disputa particular contra o Leão. E há argumentos para todos os gostos. Os objetivos e fanáticos por números podem ser convencidos pela vantagem que o Pantera tem sobre o Remo na classificação geral: são 10 pontos a mais. Os que se ligam em retrospectos têm que engolir que o Leão ainda não conseguiu vencer nenhum dos três jogos contra o alvinegro do Oeste do Pará neste campeonato, e ainda foi goleado dentro de casa em um deles. Para os que se atêm a aspectos restritos às quatro linhas, também não há combate. O São Raimundo tem jogado melhor e de forma mais regular desde o começo do Parazão.

 

Ainda faltam duas rodadas para terminar a fase de classificação do segundo turno. E, apesar de toda essa apreensão, o Remo dificilmente ficará de fora das semifinais. Tem um jogo facílimo neste domingo contra o lanterna Ananindeua e outro na próxima rodada contra o fraquejado Castanhal, que perdeu em casa e trocou de técnico na semana passada. O problema vai ser nas semi, em que um confronto contra São Raimundo ou Paysandu é simples de acontecer. E tendo em vista a ficha corrida do Leão na temporada 2009, é difícil para a torcida azulina adivinhar o que seria pior: perder a vaga na série D num confronto direto contra um clube do interior ou ser enterrado pelo maior rival.


A 10 jogos do acesso

25/03/2009

A CBF divulgou nesta terça-feira a tabela e o regulamento da série C em 2009. O formato da disputa este ano torna o acesso infinitamente mais fácil do que nos anos anteriores. Os confrontos depois da primeira fase serão todos no sistema de mata-mata, o que leva um clube a precisar de apenas 10 jogos para subir para a série B: oito na primeira fase mais dois do primeiro mata-mata. O caminho mais curto é fruto do enxugamento da competição. Ano passado, os clubes que subiram da terceira para a segunda divisão fizeram 32 jogos.

 

No total, a terceirona de 2009 terá apenas 19 datas. Os jogos serão apenas aos domingos. Vai ser um campeonato de tiro curto e inegavelmente menos atraente do que o formato “todos contra todos em pontos corridos” das séries A e B. Mas há alguns clubes que não devem reclamar da mudança. Entre eles, o Paysandu.

 

O Papão montou um time para um campeonato muito mais forte do que o que será disputado. Tem condições de sobrar na competição e de voltar à série B com folga. Só vai precisar arrumar uma solução para manter o elenco em atividade até dezembro, já que muitos jogadores têm contrato até o final do ano e o segundo jogo da final da Terceirona é no dia 20 de setembro.

 

Por outro lado, todos os clubes precisam ter cuidado com o risco de rebaixamento, já que o lanterna de cada grupo da primeira fase cai para a série D em 2010. Não vai mais haver aquela longa agonia pela qual o Remo passou em 2007: meses e meses na zona da degola, mas ainda com chances de se livrar. Vacilou, caiu. O Águia, que tem vivido um 2009 muito inconstante, tem que se cuidar.

 

Confira a tabela da primeira fase para os clubes paraenses. Ambos estão no grupo A, ao lado de Rio Branco (AC), Sampaio Corrêa (MA) e Luverdense (MT):

 

24/05

Paysandu x Sampaio Corrêa

Águia x Rio Branco

 

31/05

Sampaio Corrêa x Águia

 

14/06

Paysandu x Rio Branco

Luverdense x Águia

 

21/06

Águia x Paysandu

 

28/06

Luverdense x Paysandu

 

05/07

Paysandu x Águia

 

12/07

Rio Branco x Paysandu

Águia x Luverdense

 

19/07

Paysandu x Luverdense

 

26/07

Águia x Sampaio Corrêa

 

02/08

Sampaio Corrêa x Paysandu

Rio Branco x Águia


Santarém em festa

24/03/2009

torcida-sao-raimundo

Por mais que a atenção do público de Belém (que tem 20% da população do estado) tenha se voltado para o Re-Pa, a vitória bicolor e o gol de Zé Augusto, quem está na ponta do segundo turno é o São Raimundo. O Pantera leva vantagem sobre o Paysandu no saldo de gols: 5×3. E como faz todos os jogos desta etapa do campeonato dentro de casa, é o favorito inegável ao primeiro lugar na fase de classificação.

 

Entretanto, o que mais surpreende a nós, acostumados a olhar quase exclusivamente para a capital, é o envolvimento da torcida santarena com o sucesso do clube. Nos quatro jogos que o São Raimundo fez no estádio Barbalhão, o Pantera levou, em média, 7.861 torcedores por partida. É um número que só é superado pelos grandes da capital por causa do Re-Pa.

 

Santarém fica a mais de 1000km de Belém, no oeste do Pará. Para chegar lá a partir da capital, só com um voo de pouco mais de uma hora ou com uma viagem de barco que pode durar três dias. A distância geográfica de Belém leva Santarém a uma espécie de isolamento político e cultural. A cidade acaba sofrendo mais influência do Amazonas que do Pará (como se o município não fizesse parte do estado). Os jovens bem nascidos que querem estudar ou trabalhar fora vão para Manaus, e não para Belém. São fatos que levam a população a embarcar em um sonho de políticos da região: a criação do estado do Tapajós.

 

O parágrafo anterior não é uma digressão à toa. Serve para mostrar que, pela primeira vez, o futebol é um exemplo do sentimento de não-pertencimento dos santarenos dentro do Pará. Se antes, Remo e Paysandu eram um dos poucos pontos que uniam o oeste do Pará e a área de influência da capital, o sucesso do São Raimundo faz com que o povo de lá tenha um motivo bem particular de orgulho nos gramados.

 

Confiram mais sobre o São Raimundo no site oficial do clube e no blog da torcida organizada Loucos Alvinegros.

 

sao-rai


Vocabulário da crônica esportiva paraense #01

24/03/2009

Canícula – originalmente, é o nome de uma estrela. Segundo este dicionário online, um dos significados da palavra é “estação calmosa, em que essa estrela e o sol estão em conjunção”. Os radialistas paraenses, no entanto, preferem utilizar outro sentido do vocábulo: calor. E como o Pará sofre com as altíssimas temperaturas de qualquer região subequatorial, é extremamente comum o uso desta palavra por radialistas que querem demonstrar que têm vocabulário.

 

Aplicação: “Remo e Paysandu entram em campo logo mais debaixo de uma forte canícula nesta tarde de domingo”.

 

Flancos – é uma expressão muito utilizada em circunstâncias militares, pois se refere ao lado de um exército. Mas no Pará, é adaptada no futebol. É usada geralmente por radialistas das antigas e por treinadores medianos que tentam emplacar na carreira com um papo meio “sábio”.

 

Aplicação: “Como os laterais da minha equipe têm características ofensivas, tenho que aproveitar para jogar pelos flancos”.

 

Entregue ao DM – as duas letrinhas formam a sigla de departamento médico e são utilizadas mesmo quando um clube não tem uma sala para o atendimento dos jogadores. Se um jogador se machuca num treino e fica fora dos gramados, ele é “entregue ao DM”, ainda que o clube não tenha um médico.

 

Aplicação: “O centroavante Rabicó torceu o tornozelo e foi entregue ao DM do clube”.