O último grande acesso

 

Remo tricampeão paraense em 1991, base para o time que conquistou o acesso em 1992

Remo tricampeão paraense em 1991, base para o time que conquistou o acesso em 1992

 Numa época em que nem a vaga na série D está garantida, a torcida do Remo precisa apelar para a memória se quiser ter algum bom sentimento ligado ao campeonato brasileiro. Como o título da Terceirona em 2005 ainda está fresquinho na memória dos azulinos e cheio de informações e vídeos na internet, Travinha dá uma mão para relembrar outro grande momento do Leão em competições nacionais: o acesso à série A em 1992. Os torcedores rivais vão questionar, com alguma razão, que o acesso é bem mais fácil num torneio que dava 12 vagas na primeira divisão. Mas contra regulamentos, não há discussão.

 

Os campeonatos nacionais de 1992 foram influenciados pelo rebaixamento do Grêmio no ano anterior. Tudo o que vinha abaixo da série A teve alterações. Algumas profundas, outras superficiais. Primeiro foi o nome da série B, que se transformou em “Divisão Intermediária” e depois em “Divisão Classificatória”, provavelmente para não fazer com que os torcedores gremistas se sentissem de fato na segundona. A série B de 92 foi, na verdade, a terceira divisão, que acabou conquistada pela Tuna.

 

A mudança mais grotesca foi no regulamento. O campeonato teria 24 clubes. Mas a um mês do pontapé inicial, ganhou mais 8 participantes. Eram clubes indicados por seis federações que não tinham representantes no torneio. No final, foram 32 equipes divididas em quatro grupos de oito. Cada um tinha um cabeça de chave, que, coincidência ou não, os clubes que tinham que subir a qualquer custo: Santa Cruz, Vitória, Coritiba e Grêmio. O acesso era muito simples: os três melhores de cada grupo subiriam para a série A em 93. Moleza.

Luciano Viana, comprado em definitivo pelo Remo às vésperas do Brasileiro, era um dos craques do time

Luciano Viana, comprado em definitivo pelo Remo às vésperas do Brasileiro, era um dos craques do time

 

Era a grande oportunidade para o Remo, que tinha acabado de conquistar o tricampeonato estadual com uma belíssima equipe: o lateral Marcelo, o zagueiro Belterra, o volante Agnaldo e o atacante Luciano Viana eram apenas alguns dos craques e ídolos da torcida azulina, que tinha no meio-campo Artur o principal herói. Todos eram comandados por Waldemar Carabina, técnico que marcou época por ser não apenas competente como boa praça e sem frescuras. Carabina costumava, por exemplo, comandar treinos sem camisa. Algo impensável hoje em dia, em que assessores de imprensa tentam esconder qualquer sinal de amadorismo nos clubes.

 

O Leão caiu no grupo 2, cujo cabeça de chave era o Vitória. Os outros clubes eram Taguatinga-DF, Desportiva-ES, Anapolina-GO, Americano-RJ, Itaperuna-RJ e Confiança-SE. Como a disputa era em ida e volta, em 14 jogos já era possível saber se a primeira divisão seria uma realidade no ano seguinte.

 

A estréia foi no dia 9 de fevereiro, fora de casa: 2×0 sobre o Taguatinga. Depois, a derrota de 1×0 para o Anapolina quebrou uma invencibilidade de 8 meses do Remo. Na rodada seguinte, o Leão perdeu de 2×1 para a Desportiva e os jornais começaram a falar em crise. Só que o final da primeira metade desta fase do campeonato foi avassalador: quatro jogos em casa e quatro vitórias. As duas primeiras por goleada: 5×0 sobre o Itaperuna e 4×0 sobre o Confiança. Nestes dois jogos, o destaque foi o atacante Dicão, que marcou três gols. Depois, as vítimas foram o Vitória (3×1) e o Americano (3×1).

 

 

Na época, o então dirigente do Americano, Eduardo Vianna (o nada saudoso Caixa D´água), queria encrencar com o Remo. Dizia que o estádio Baenão não tinha as mínimas condições de receber jogos de campeonato brasileiro. Motivado ou não pela intriga, o Leão transferiu três dos sete jogos em Belém na primeira fase para o Mangueirão, que então se chamava Estádio Estadual Alacid Nunes. Outra controvérsia foi provocada por Raimundo Ribeiro, em seu primeiro mandato como presidente remista: ele cortou os ingressos subsidiados das torcidas organizadas, a quem acusava de provocar os tumultos responsáveis pelas queixas de Caixa D´Água.

Waldemar Carabina, o comandante remista no acesso

Waldemar Carabina, o comandante remista no acesso

Mas foi no Baenão que o Remo sofreu sua única derrota em casa na primeira fase: 4×3 para a Desportiva. E depois de uma vitória de 4×0 sobre o Taguatinga e de um empate em 0x0 com a Anapolina em Belém, o Leão saiu para quatro jogos fora de casa nas últimas quatro rodadas. Algo completamente impensável em qualquer bom regulamento. Contra o Vitória, derrota por 1×0. Contra o Confiança, vitória por 1×0. O jogo seguinte, contra o Itaperuna, praticamente garantiu o acesso. Foi no dia 12 de abril de 1992, no estádio Caio Martins, em Niterói. O Leão venceu por 2×1, com gols de Lamartine e Formiga. Índio descontou para o Itaperuna. Com a vitória, o Remo chegou a 17 pontos e já não podia mais ser superado pela Anapolina, quarta colocada com 13. O Leão estava de volta à primeira divisão. A vitória de 2×1 sobre o Americano dois dias depois, no estádio Godofredo Cruz, foi cumprimento de tabela.

 

 

Depois da maratona longe de casa, a volta da delegação azulina para Belém foi marcada por festa. Milhares de torcedores foram ao aeroporto de Val de Cães para receber os jogadores que reconduziram o Remo à elite do futebol brasileira. Outros tantos foram festejar na sede social do clube.

 

 

 

Como os 12 novos integrantes da série A já estavam definidos, a definição do título era quase um mero detalhe. Na segunda fase, foram formados três quadrangulares. O Remo jogou contra Fortaleza, Santa Cruz e Ceará e passou em primeiro lugar. Em seis jogos, venceu dois e empatou quatro. A terceira fase teve os oito melhores do campeonato divididos em duas chaves de quatro. O Leão voltou a enfrentar o Fortaleza e o Santa Cruz. O Vitória completou a chave. Desta vez, o time de Waldemar Carabina teve menos sucesso. Perdeu quatro dos seis jogos e ficou em último lugar no grupo, ficando fora das semifinais.

 

O Paraná Clube acabou campeão brasileiro da segunda divisão naquele ano, com o Vitória em segundo lugar. Mas o Leão (quinto lugar na classificação geral) festejou como se tivesse erguido o troféu. Lá se vão 17 anos desde o último acesso remista à série A. Algo que, hoje em dia, precisaria de mais três temporadas para acontecer, na melhor das hipóteses.

 

CAMPANHA DO REMO:

 

Primeira fase

2×0 Taguatinga (F)

0x1 Anapolina (F)

1×2 Desportiva (F)

5×0 Itaperuna (C)

4×0 Confiança (C)

3×1 Vitória (C)

3×1 Americano (C)

3×4 Desportiva (C)

4×0 Taguatinga (C)

0x0 Anapolina (C)

0x1 Vitória (F)

1×0 Confiança (F)

2×1 Itaperuna (F)

2×1 Americano (F)

 

Segunda fase

 

0x0 Santa Cruz (F)

0x0 Ceará (F)

2×0 Fortaleza (F)

2×2 Santa Cruz (C)

1×1 Ceará (C)

1×0 Fortaleza (C)

 

Terceira fase

 

1×2 Fortaleza (C)

0x1 Vitória (F)

1×2 Santa Cruz (F)

1×5 Fortaleza (F)

0x0 Vitória (C)

1×0 Santa Cruz (C)

 

Números: 26 jogos, 12 vitórias, 6 empates e 8 derrotas. 40 gols pró e 24 gols contra.

 

Artilheiros: Formiga – 9 gols. Artur – 7. Lamartine – 5. Agnaldo, Papelin e Dicão – 3. Edmilson e Luciano Viana – 2. Marcelo, Luís Carlos, Rildon, César, Alencar e Cláudio (Itaperuna, contra) – 1.

 

Time-base: Paulo Vítor; Marcelo, Belterra, Silvano e Luís Carlos (Paulo César); Agnaldo, Alencar e Arthur; Formiga, Luciano Viana e Lamartine. Técnico: Waldemar Carabina.

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3 Responses to O último grande acesso

  1. Raphael Pinheiro disse:

    Ei Léo, o Carabina já morreu? Ele sumiu ainda no fim da década de 90 e sempre tive curiosidade de saber o que aconteceu com ele – se continuou trabalhando (e onde, no caso), etc… acho que o Remo não perdeu nenhum Parazão que disputou com ele no comando, pelo menos os que acompanhei.

  2. junior mascarenhas disse:

    q pena que nossos atuais dirigentes não costumam pensar grande. como pode um time como o emo ficar fora da seria d.
    a q ponto chegamos, como pode um presidente quere montar um time em 15 dias e ainda contrata um bonde de perna-de-pau.
    aí é não ter pena do torcedor q faz um grande esforço pra ir ao estádio.
    tomara q isto sirva de lição e os nossos dirigentes voltem a pensar grande.

  3. cesar parra campos disse:

    Adorei essa pagina. Fiquei extremamente feliz de relembrar o acesso de 1992. Sou o Cesar que fez um dos gols contra o Americano. Um abraço a todos.

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