Os mendigos do bom futebol

O gol do Alex Sandro motivou mais uma colaboração aqui no Travinha. Desta vez, o amigo Elvis Rocha, editor do Amazônia Hoje, deu sua opinião a respeito da imagem do ano no futebol paraense.

 

Em 31 anos de vida, nunca tinha visto nada parecido. Quando o lateral-direito Alex Sandro tirou o goleiro Alencar Baú da jogada e, com o gol livre, preteriu o manjadíssimo toque simples para as redes em favor de um inusitado peixinho rasteiro, ampliando aos 45 minutos do primeiro tempo a vantagem do Paysandu diante do Castanhal, no Mangueirão, a redação inteira sorriu.

 

E eram sorrisos em tons marinhos e celestes. Eu vi. Foi rápido, mas por um instante o milagre do futebol se materializava ali, bem diante dos meus olhos. A surpresa derrubando diferenças e celebrando o que faz do esporte bretão, de uma vez por todas, a “coisa mais importante entre as menos importantes”, como pregava aquele filósofo que minha péssima memória não permite creditar agora. 

 

Assistir encarniçados torcedores de Remo e Paysandu diante de um televisor gargalhando por conta de um mesmo e solitário lance, ainda que por segundos, me trouxe à lembrança o prefácio escrito por Eduardo Galeano para um livro sobre a infindável magia do futebol. Em “Futebol ao Sol e à Sombra”, o uruguaio conta como, fanático de uma vida inteira pelo Nacional, viu-se, num estádio Centenário lotado, fazendo um esforço enorme para não aplaudir um gol marcado pelo rival Peñarol .

 

Não aplaudiu, mas saiu de lá consciente de que somos todos, no final das contas, mendigos do bom futebol. Alex Sandro, que está longe de ser um craque, levou safanões dos rivais e cartão amarelo do árbitro, por atitude “antidesportiva”. Está fora da primeira partida contra o São Raimundo, na decisão do primeiro turno do Campeonato Paraense, e vai suscitar durante a semana chatíssimos debates sobre respeito ao adversário x irreverência nesse futebol cada dia mais chato e burocratizado que conferimos semana após semana.

 

Eu, por minha vez, continuarei acreditando que desrespeitoso é destruir o joelho do colega de profissão ou oferecer um espetáculo indigno do nome aos que pagam ingressos para serem tratados, na maioria absoluta das vezes, como sardinhas de quinta categoria dentro dos nossos fuleiros e acanhados estádios.

 

 

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3 Responses to Os mendigos do bom futebol

  1. Pedrox disse:

    Eu posso imprimir este texto, em 3 vias, reconhecer assinatura e registrar em cartório minha concordância com tuas palavras?

  2. Achei tão ridículo a cena, primeiro dos jogadores do Castanhal indo “tirar satisfação” pelo gol de peixinho.
    E segundo do árbitro dando um sermão, como se fosse o dono da razão no meio do campo, ou seja, dá razão para os “malas” de plantão bradarem aos 4 ventos que isso é uma “afronta” etc.
    Afronta é não ter um estádio decente para se ir ver futebol.
    Afronta é não ter a mínima segurança em levar seu filho e sua mulher para ver um jogo.
    Afronta são os preços abusivos nas maiorias dos estádios para comprar até uma mísera garrafinha d’água.
    Afronta é a corrupção de dirigentes, empresários, no intuito de se ganhar nas custas de um esporte tão bonito.
    Parabéns ao Alex Sandro pelo lance que é o verdadeiro futebol !
    Aquele futebol que jogava nos campinhos e na rua com 10 anos e que me fez amar este jogo.
    Abraços !

  3. Guilherme Guerreiro Neto disse:

    O Elvis, como sempre, mandou bem. Tenho a mesma opinião. Ah, e parabéns pelo atualizado blog, Léo!

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