Esconde-esconde na moda

Está virando rotina nos clubes paraenses. Em quase todos os treinos, ainda que não sejam às vésperas de jogos importantes, os técnicos pedem para que as câmeras de TV sejam desligadas. Às vezes, o pedido é feito com extrema educação. Em outras, é transmitido por algum garoto de recados. Há situações em que a restrição é apenas para treinos de jogadas ensaiadas. E há aquelas em que todo o treino é proibido.

 

A prática atrapalha muito os jornalistas de TV, que precisam das imagens para construir as reportagens, ainda que tenham feito boas apurações e entrevistas. E o fato de o esconde-esconde ter se tornado rotineiro faz com que os repórteres comecem a dar alfinetadas em suas matérias. Como aconteceu depois do treino de ontem do Paysandu, em que Édson Gaúcho proibiu imagens e nem deu entrevista para dar alguma satisfação.

 

Chega-se então a uma interessante discussão: limitar as imagens dos treinos é certo ou errado? O quanto uma agremiação particular (o clube é tão privado quanto uma empresa qualquer) pode se permitir escancarar tanto quanto uma instituição pública?

 

Fato 1 – a imprensa é muito mal acostumada. Até bem pouco tempo atrás, repórteres entrevistavam jogadores antes e depois dos treinos, ainda no gramado. Alguns técnicos se deixavam entrevistar durante os trabalhos, quando eram comandados pelos preparadores físicos. Aqui no Pará, as assessorias de imprensa de clubes ainda engatinham. E quando tentam instituir alguma medida para organizar o trabalho dos repórteres, são acusadas de “atrapalhar o trabalho dos colegas”.

 

Fato 2 – a imprensa pode até ser invasiva, mas isso não justifica desrespeito. Há um técnico de um clube paraense que disse a um repórter recentemente: “vocês são muito amadores”. Um dia antes, teria chamado os jornalistas de “esses fodidos da imprensa”. Não dá. Tudo o que os repórteres perguntam, o que os cinegrafistas filmam e os fotógrafos fotografam é de interesse público. Entre as pessoas que buscam informações no jornalismo diário, certamente há mais pessoas interessadas em futebol do que em meio ambiente. Preferem ler sobre Remo e Paysandu do que sobre aquecimento global ou crise econômica.

 

Em grandes clubes, como São Paulo e Palmeiras, a limitação do trabalho da imprensa esportiva já é institucionalizada. No CT do tricolor, por exemplo, apenas os cinegrafistas e fotógrafos vão para a beira do gramado durante os treinos. E com tempo cronometrado minuciosamente. Azar o deles se a notícia apareceu em um momento em que eles não acompanhavam. Isso transformou bastante o dia-a-dia das TVs que cobrem futebol. As entradas ao vivo se tornaram muito mais comuns que as matérias gravadas nos programas do meio-dia.

 

Seguir esse exemplo tem sido visto pelos clubes paraenses como um dos itens para uma suposta receita de profissionalização. E eu, particularmente, acredito que a organização do trabalho da imprensa no dia-a-dia da cobertura esportiva é um passo necessário. Desde que se atinja o sábio meio termo e que os jornalistas não sejam coibidos de fazer o seu trabalho.

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